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Governo |
08-09-2026 17:15:15
| Fonte: CIPRA
ANGOLA E BOTSWANA: 50 ANOS DE RELAÇÕES
Declarações do Presidente da República à imprensa
<p>O Presidente da República de Angola, João Lourenço, sublinhou a longevidade das relações formais que ligam Angola e o Botswana (5 décadas, desde Fevereiro de 1976) e defendeu o princípio da sua transformação em cooperação tangível, marcada por realizações concretas para benefício dos respectivos povos.</p><p>O Chefe de Estado proferiu um discurso de boas-vindas perante o homólogo do Botswana, Duma Gideon Boko, e das delegações acompanhantes dos dois países, na sala de reuniões do Conselho de Ministros:</p><p>“ Sua Excelência Duma Gideon Boko, Presidente da República do Botswana;</p><p>- Distintos Membros das Delegações;</p><p>- Minhas Senhoras, Meus Senhores;</p><p>- Excelências,</p><p>Permitam-me que comece por dar as boas-vindas a Vossa Excelência e à delegação que o acompanha nesta Sua primeira Visita de Estado à República de Angola, que se realiza cerca de cinco meses depois da Visita de Trabalho que efectuou ao nosso país e que já, naquela altura, augurou um futuro bastante promissor para as importantes relações de cooperação que vigoram entre Angola e o Botswana.</p><p>Espero que no decurso desta visita partilhemos momentos de interacção determinantes para o reforço do intercâmbio entre os nossos dois países.</p><p>Como sabe, a República de Angola e a República do Botswana mantêm relações político-diplomáticas bastante consistentes há aproximadamente cinco décadas, que se fortaleceram de forma significativa em 2006, com a celebração do Acordo Geral de Cooperação nos domínios Económico, Científico, Técnico e Cultural, permitindo que começássemos a dar forma e conteúdo às relações bilaterais.</p><p>Fizemos até aqui um longo percurso, mas não conseguimos alcançar todos os resultados possíveis. Isto impele-nos a fazer um esforço maior para adequar a nossa cooperação ao imenso potencial de que os nossos países dispõem, a fim de ampliarmos as trocas e os intercâmbios existentes para um quadro mais amplo que não seja apenas o multilateral, em que temos sido bastante activos no âmbito da SADC, da Área Transfronteiriça de Conservação Kavango-Zambeze ATFC-KAZA, da Comissão Permanente das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Okavango OKACOM e da Comissão do Curso das Águas do Zambeze ZAMCOM.</p><p>Todos estes factores que referi encerram um potencial de desenvolvimento turístico em que Angola está a apostar e a colocar todo o empenho, de modo a sensibilizar as grandes empresas do ecoturismo já presentes no Botswana no sentido de se instalarem também no lado angolano do Okavango e criarem-se sinergias com benefícios recíprocos consideráveis.</p><p>Angola, que integra juntamente com o Botswana, a iniciativa regional da Área Transfronteiriça de Conservação Kavango-Zambeze, ATFC-KAZA, deve ratificar o respectivo Tratado, o qual poderá constituir o ponto de partida para o fortalecimento da nossa relação no domínio do turismo.</p><p>Diligências nesse sentido estão em curso e esperamos obter bons resultados a breve trecho.</p><p>O potencial turístico do Okavango é enorme e adquiriu uma importância ainda maior desde que foi proclamado património mundial pela UNESCO, pelo que gostaríamos que este estatuto, no quadro de uma acção conjunta, abranja igualmente toda a dimensão do rio Cubango-Okavango.</p><p>Estamos a fazer tudo o que podemos para potenciar a província do Cuando como núcleo principal do ecoturismo angolano, parte integrante do roteiro turístico do projecto KAZA, interligando Angola às principais zonas turísticas do Botswana e aos demais países membros.</p><p>No conjunto de iniciativas que levamos a efeito com este propósito, destaco a realização, no nosso país, do 1.º Fórum de Investidores da Região Angolana do Okavango, na sequência do qual sabemos estarem já em construção os primeiros alojamentos turísticos na componente angolana do Okavango.</p><p>Creio que esta é uma oportunidade de negócio que poderia ser aproveitada pelos investidores interessados do Botswana.</p><p>Excelência,</p><p>Estimados Membros das Delegações,</p><p>São bastante variadas as áreas de cooperação entre os nossos dois países e, por esta razão, para torná-las efectivas e susceptíveis de produzir bons resultados, temos de procurar imprimir uma maior dinâmica às nossas acções, facto que em grande medida tem vindo a acontecer com a troca de delegações dos mais diferentes níveis, merecendo destaque, neste capítulo, as visitas de trabalho que o predecessor de Vossa Excelência realizou a Angola e a Visita de Estado que efectuei ao Botswana em 2023.</p><p>Nessa ocasião, abordámos a necessidade de priorizarmos o reforço da cooperação nos sectores político-diplomático, no da agricultura e pecuária, no dos transportes, do petróleo e derivados, da energia e das águas, do turismo e ambiente, das minas, das infra-estruturas e dos investimentos, bem como a necessidade de acelerar a conclusão dos instrumentos jurídicos pendentes, entre os quais o Acordo Bilateral de Serviços Aéreos, que permitirá estabelecer a ligação aérea directa entre os nossos países e de realizarmos a primeira Sessão da Comissão Mista Bilateral, que teve finalmente lugar no decurso deste mês.</p><p>Os resultados são bastante animadores, uma vez que foi possível serem assinados alguns importantes instrumentos jurídicos e definir os sectores da Agricultura, dos Transportes, da Energia, do Petróleo e Gás e dos Recursos Minerais, como áreas nucleares para o reforço da nossa cooperação.</p><p>Considero, assim, que a Comissão Bilateral Angola-Botswana deve transformar-se no instrumento de encontro mais ágil e efectivo entre os nossos dois países, capaz de nos proporcionar os melhores resultados.</p><p>A par desse mecanismo, gostaria de referir, nesta ocasião, que seria de grande utilidade para a intensificação das relações bilaterais - que nos oferecem uma perspectiva bastante animadora - que a República do Botswana encarasse a possibilidade de abrir uma Representação Diplomática em Angola, por entendermos que contribuiria de forma decisiva para assegurar o devido acompanhamento e a correcta aplicação dos instrumentos de cooperação entre os nossos dois países.</p><p>Excelências,</p><p>Senhor Presidente,</p><p>Em alguns dos encontros que os nossos países mantiveram em diferentes ocasiões abordámos questões fundamentais relacionadas com a estratégia de cooperação no sector diamantífero, por forma a podermos desempenhar na nossa condição de grandes produtores mundiais um papel chave em toda a linha do sector diamantífero.</p><p>É evidente que temos de desenvolver, de forma coordenada com a participação de outros países africanos produtores, acções que nos permitem criar um mecanismo conjunto de protecção e salvaguarda dos nossos interesses em matéria de produção, processamento, distribuição e comercialização dos diamantes, de modo a valorizar o diamante natural e não os sucedâneos que tendem a comprometer esta nossa importante fonte de rendimento.</p><p>Esse objectivo tem o potencial de elevar a cooperação entre Angola e o Botswana a um nível verdadeiramente estratégico, bem como o de reforçar a agenda de soberania sobre os recursos africanos, com impacto na definição dos preços globais dos diamantes naturais.</p><p>No âmbito dos projectos de cooperação que temos delineado, gostaria de dar realce ao facto de vermos com bons olhos a possibilidade de o Botswana adquirir importantes quotas de participação na Refinaria do Lobito.</p><p>Esta Refinaria reveste-se de carácter estratégico e deve ser encarada como um projecto de dimensão e impacto regionais, capaz de mitigar os efeitos da volatilidade do preço do petróleo e dos seus derivados nas economias dos países encravados, como é o caso do Botswana.</p><p>Neste contexto, considero que a participação do Vosso país no capital da Refinaria do Lobito seria mutuamente vantajosa na óptica da partilha de projectos de infra-estruturas.</p><p>A par do que referi, julgo oportuno mencionar outras possibilidades que vão desde as trocas comerciais de produtos da agropecuária e de outros bens do Botswana e de Angola até à absorção da experiência e dos vossos conhecimentos em matéria do combate às doenças dos animais, porque dispõem de um dos laboratórios de vacina animal mais desenvolvidos do nosso continente.</p><p>Este leque de possibilidades poderá tornar-se uma realidade bastante consistente se conseguirmos ultrapassar os constrangimentos que actualmente subsistem quanto ao transporte de bens entre os nossos dois países.</p><p>Senhor Presidente</p><p>Excelências</p><p>A paz e a segurança mundial atravessam, neste momento, um dos períodos mais delicados das últimas décadas.</p><p>Vivemos hoje um tempo bastante perigoso, em que se desenrolam ao mesmo tempo múltiplos conflitos, que mantêm a diplomacia mundial em permanente estado de alerta, com o Sudão, o Sahel, a RDC, a Europa, o Médio Oriente e o Golfo Pérsico entre os focos que concentram as principais preocupações a nível global.</p><p>O nosso continente continua a pagar um preço particularmente alto por esta instabilidade. No Sudão, a situação de calamidade se agrava, parecendo estar-se cada vez mais distante de uma solução negociada que leve ao fim do conflito para se alcançar a paz definitiva.</p><p>No Leste da República Democrática do Congo, apesar dos vários esforços diplomáticos desenvolvidos a nível de África, da iniciativa de Doha e do Acordo de Paz de Washington, a resolução desse intrincado conflito continua a ser uma grande preocupação, provocando de entre as várias consequências, o deslocamento de centenas de milhares de pessoas e uma crise humanitária entre as populações directamente envolvidas.</p><p>No Sahel, os grupos jihadistas continuam a desafiar a autoridade dos Estados, enquanto a Somália e o norte de Moçambique enfrentam as suas próprias frentes de insurgência e instabilidade.</p><p>Somam-se a estas crises dois conflitos cujas consequências vão para além das suas fronteiras, pois a guerra no Leste da Europa, que se arrasta sem uma paz à vista, afectando negativamente a segurança alimentar, devido à crescente escassez de fertilizantes no mercado mundial que ela vem causando, e o conflito no Médio Oriente e Golfo Pérsico, cuja escalada, em 2026, reacendeu um alerta global sobre a segurança energética mundial.</p><p>É por isso cada vez mais evidente que a perturbação da segurança alimentar e da segurança energética deixou de ser uma questão isolada, para se tornar num factor central da estabilidade da economia global.</p><p>Impõe-se, por isso, que a Comunidade Internacional se mobilize dentro do quadro das Nações Unidas, para encorajar e sensibilizar as partes em conflito no sentido de aproveitarem adequadamente os esforços recentes de promoção do diálogo, para que se abra um caminho que leve à paz definitiva.</p><p>Quanto ao Médio Oriente, devemos continuar a insistir na necessidade da criação do Estado Palestiniano, ao abrigo das pertinentes resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, por considerarmos tratar-se de um passo decisivo para o alcance da paz em toda aquela região.</p><p>Relativamente ao nosso continente, mantêm-se os incessantes esforços da União Africana, de que realço, entre várias iniciativas, a 21.ª Cimeira Extraordinária dos Chefes de Estado e de Governo da UA sobre o Reforços dos Mecanismos de Prevenção e Resolução dos Conflitos em África realizada aqui em Luanda recentemente, destinadas a encontrar soluções que levem ao Silenciar das Armas e à criação de condições para implementarmos, num ambiente de segurança, de estabilidade, de paz, de concórdia e de harmonia, programas de desenvolvimento em África.</p><p>A Cimeira de Luanda tomou decisões pertinentes, corajosas e alinhadas com o momento actual de incertezas no nosso continente, restando-nos cumpri-las integralmente e sem hesitações para mudarmos o estado actual de coisas em África.</p><p>Gostaria de reafirmar a nossa total disponibilidade para, em conjunto com o Botswana, transformar décadas de amizade e de proximidade histórica numa parceria estratégica, moderna e mutuamente vantajosa, à altura das expectativas dos nossos povos.</p><p>Muito obrigado.”</p>